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Enquanto o mundo exige conclusões, a vida pede processo

No cotidiano, a mudança costuma ser reconhecida apenas quando se torna perfeitamente apresentável através de um novo projeto enunciado que, de preferência, seja limpo, linear, com começo, meio e fim. Deve ser fácil de apontar, registrar e converter em evidência.


Obviamente, o problema não é a necessidade de provas e ações concretas que sinalizem o que está se tornando diferente, mas a desqualificação sistemática do que ainda não se pode reduzir a isso. A sociedade parece fundada na concepção de que a transformação venha com um produto final, e trata a travessia, o processo, o caos e a complexidade como agentes supérfluos.


Parece que só há legitimidade quando há conclusão, porque a conclusão reorganiza expectativas, reduz ambiguidades e alivia o desconforto que a incerteza naturalmente produz. Exige-se, portanto, um desfecho, mesmo quando a experiência ainda está em formação, e, por ainda não ter forma definitiva, ela passa a correr o risco de ser lida como indecisão, incompetência ou falta de esforço.


Trabalho, redes, aplicativos, metas, performances de produtividade e narrativas de “evolução” operam com a gramática do resultado. Status, entrega, upgrade, virada, anúncio. Tudo tende a ser traduzido em marcos verificáveis, e aquilo que não se mede, perde valor. Há, nisso, um tipo de violência sofisticada. Ora, não é preciso proibir processos; basta tornar o ambiente incapaz de acolhê-los, saturando a vida de exigências e velocidade. A travessia vira mero desperdício porque não rende prova imediata, e o desperdício, em uma cultura orientada pela eficiência, vira uma imensa perda de tempo.


A mudança, então, precisa ter uma justificativa socialmente aceitável, e a vida tende a perder o direito ao intervalo, à ambivalência e ao não saber, condições estas que sustentam o amadurecimento de transformações importantes, pois sem esse espaço de suspensão, em que ainda não é preciso nomear nem concluir, a transformação se torna apressada, endurece em certezas artificiais e passa a acontecer mais como resposta à pressão do que como elaboração preenchida de densidade e autencidade.


Uma sociedade que só reconhece a mudança quando ela já se fez um fato não está apenas apressando pessoas; está empobrecendo o repertório do que considera humano. Em vez de admitir que a vida se reorganiza em múltiplos ritmos, ela oferece uma moral do “resolvido”, em que ser válido é ser conclusivo, e ser conclusivo é ser legível para os outros.


Sustentar a travessia nesse cenário vira um ato de transgressão contra uma cultura que desautoriza o processo. E é nesse atrito, entre o tempo da vida, e o tempo social da prova, que se torna indispensável não reduzir tudo a uma assinatura apressada para satisfazer a demanda do Outro por concretude, mas permitir-se mergulhar nas profundezas do processo.

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