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Se a vida se repete, como você vive o hoje? Nietzsche e o conceito de eterno retorno



Em A gaia ciência, Nietzsche introduz o pensamento do eterno retorno na passagem em que um demônio anuncia que toda a vida, “como tu agora a vives e já a viveste”, deverá retornar inúmeras vezes, sem nada de diferente nela (Nietzsche, 1882/2001, §341). O tema reaparece em Assim falou Zaratustra, onde o eterno retorno surge como “o peso mais pesado” (das schwerste Gewicht) em “Da visão e do enigma” (Nietzsche, 1883–1885/2011).


Aqui, a simbolização do eterno retorno não indica um destino fixo, mas uma responsabilidade diante da própria existência, pois se a vida retorna tal como foi vivida, nada nela é considerado insignificante. Cada gesto, escolha e ato ganha espessura e perde o caráter de mero acontecimento passageiro.


O presente, a seu tempo, deixa de ser apenas uma etapa rumo a um futuro idealizado. Aliás, Nietzsche critica a tendência de se esperar por uma melhoria futura, e chama a atenção para o agora. É nesse horizonte que emerge o amor fati, expresso no desejo de “aprender a ver como belo aquilo que é necessário” (Nietzsche, 1882/2001, §276).


De maneira simplista, o amor fati envolve uma aceitação ativa do próprio percurso. Não se trata de resignação, mas sim da capacidade de afirmar a vida como ela se apresenta. É amar o destino ou, mais precisamente, amar aquilo que acontece.


Todavia, é natural que a ideia de eterno retorno cause certa estranheza, afinal, é de se supor que ninguém deseje reviver indefinidamente aquilo que, de algum modo, lhe feriu. A reflexão, então, volta por outro lado: o que, na sua vida atual, seria insustentável se continuasse do mesmo modo por muito tempo? E que pequenos ajustes poderiam tornar o seu dia de hoje mais aceitável?


Assim, Nietzsche aponta para transformações que não dependem de grandes rupturas. A mudança pode começar de modo discreto, quando se reconhece a repetição que atravessa a própria vida, e esse reconhecimento abre espaço para outras formas de agir. Assumir a própria história torna-se o contexto em que algo pode se transformar. O eterno retorno, portanto, deixa de soar como uma condenação e passa a ser um convite.


Fato é que não existem vidas perfeitas capazes de sustentar uma repetição infinita. O que existe são vidas que podem ser afirmadas e vividas com presença, implicação e responsabilidade.


Isso pode acontecer quando se reconhece o que já foi vivido, quando se revisitam essas experiências e delas surgem outras maneiras de compreender a si mesmo.


Nesse movimento, podem se abrir possibilidades diferentes de existir, e a transformação encontra caminhos para se expressar de forma mais singular e autêntica.



Referências


Nietzsche, F. (2001). A gaia ciência (P. C. de Souza, Trad.). Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1882).


Nietzsche, F. (2011). Assim falou Zaratustra (M. da Veiga, Trad.). Companhia das Letras. (Obra original publicada entre 1883 e 1885).

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